LGBTQIA

O dialeto LGBTQI do ENEM 2018 e o que esperar para edição desse ano

Parada LGBT São Paulo 2018 - Foto: Renne Ramos

No próximo domingo, 03 de novembro, acontece a primeira fase do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) 2019.

Esta semana também marca um ano desde que Jair Bolsonaro foi eleito à presidência, sendo esta a primeira prova em seu mandato – vale lembrar que durante sua campanha eleitoral, o mesmo criticou o Exame por seu “conteúdo ideológico”.

Ao portal G1, o Inep, órgão responsável pela elaboração do exame, afirmou que recebeu recomendação expressa para que as questões mais polêmicas não entrem na avaliação.

O dialeto LGBTQI do ENEM 2018

ENEM 2018 veio trazendo polêmicas por conta de alguns temas abordados. Entre críticas e aplausos, conseguiu chamar atenção para assuntos que, indiscutivelmente, ainda causam certo desconforto na sociedade brasileira.

Muitos foram os assuntos importantes abordados na prova, tais como o machismo e a lamentável desvalorização da mulher, o movimento nazista, as fake news, como forma de manipulação do comportamento humano, entre outros.

Questão ENEM Dialeto LGBTQI

Entretanto, uma das questões consideradas mais difíceis e polemicas da última prova foi a do “dialeto LGBTQI”.

O enunciado da referida questão trazia algumas expressões do “Pajubá”, que é um dialeto utilizado pela comunidade LGBTQI+. Mencionava que tal dialeto LGBTQI tem origem em expressões africanas, está presente na internet e que tem até mesmo um dicionário explicativo dessa linguagem. Ao final, pedia para o candidato identificar por qual motivo o Pajubá deveria ser considerado elemento do patrimônio linguístico.

Algumas análises expostas nos meios de comunicação consideraram a questão absurda por supostamente exigir do candidato o conhecimento de uma linguagem tão específica.

Argumentaram, ainda, que o ENEM quis “enfiar goela abaixo” o modo de viver da população LGBTQI+ para os pretensos universitários. E que a questão não estava medindo conhecimento nenhum, fazendo apenas com que a garotada se interessasse mais pelo assunto – o auge.

lgbt

Ato contra a LGBTfobia em Copacabana. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Flávia Albaine, Defensora Pública do Estado de RO, comenta “absurdo, creio eu, é continuar negando que essa população faz parte da sociedade brasileira. O seu modo de ser é sim integrante da cultura nacional, possuindo a mesma importância e devendo ter o mesmo respeito que o modo cultural de tantos outros grupos integrantes da nossa cultura.” 

Para ela, é um grande equívoco achar que a questão exigia do candidato o conhecimento de expressões específicas do Pajubá. A questão exigia do candidato a capacidade de interpretar e, de sobra, gerava uma reflexão sobre um tema tão importante. Ela explica:

a resposta do enunciado para justificar o Pajubá com status de dialeto e elemento do patrimônio linguístico era a alternativa “ser consolidado por objetos formais de registro”.

Ora, o próprio enunciado falava que o dialeto LGBTQI estava na internet e que já havia até um dicionário para o mesmo. Um dicionário não é um objeto formal de registro? Pronto! Era por aí que o candidato conseguia resolver a questão: interpretando. Em nenhum momento a questão perguntou o significado de expressões específicas do dialeto, conclui a Defensora.

Flávia traz a seguinte reflexão:

até que ponto o preconceito já está tão enraizado em nossa sociedade ao passo de uma questão com um dialeto LGBTQI em uma prova para o ensino universitário causar tantas polêmicas na internet? E se fosse essa mesma questão com outro dialeto qualquer? Será que as críticas tais como “isso não mede conhecimento nenhum” teriam sido as mesmas?

É notório o quanto assuntos que envolvem a população LGBTQI+ causem incômodo à massa conservadora, mas é importante que os nossos jovens saibam da existência da população LGBTQI+ e suas culturas, afinal, também fazem parte da nossa história e da nossa diversidade.

Pajubá, por exemplo, é uma linguagem com origens africanas e que foi muito utilizada pelas travestis durante a Ditadura Brasileira. Posteriormente, o seu uso acabou se difundindo entre a população LGBTI como um todo.

População LGBTQI+ no Brasil

dialeto lgbtqi

Ademais, a questão do ENEM nos remete à reflexão sobre a situação em que essa parcela da população se encontra na atualidade brasileira. Infelizmente, o Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo.

Diariamente, milhares de travestis, homoafetivos e transexuais perdem as suas vidas de forma violenta, demonstrando, assim, a tensão existente entre Estado e sociedade civil:

ao mesmo tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos e outros documentos nacionais e internacionais exigem do Estado uma conduta de proteção da pessoa pelo simples fato de ser um ser humano, o próprio Estado não consegue garantir o exercício dos direitos mínimos de seus cidadãos, como o direito de ser quem são. E isso é extremamente grave.

Além da violência física, ainda há a violência psicológica embutida nas piadas homofóbicas, nos estereótipos, nas exclusões dos meios sociais e em tantas outras situações horrendas ainda presentes no cotidiano brasileiro. Muitas dessas pessoas, inclusive, acabam tendo seus direitos básicos negados simplesmente por assumirem a sua condição sexual.

dialeto lgbt

Cite-se, a título de exemplo, caso recentemente analisado pela Justiça Federal Brasileira onde a transexual e militar B. G. B. teve o seu direito ao trabalho violado, tendo sido afastada das suas funções dentro da Marinha Brasileira pelo diagnóstico de transexualismo.

Felizmente, a decisão judicial entendeu que o entendimento da Marinha de enxergar o transexualismo enquanto patologia está equivocado, uma vez que a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) já o enquadrou na categoria de saúde sexual em respeito à diversidade sexual do ser humano.

Educação e direitos humanos

Educação, portanto, é isso. É fazer com que os nossos jovens se interessem sim por problemas sociais graves como as constantes violações dos direitos da população LGBTQI+. É fazer com que a questão de uma prova ajude a difundir a cultura e a luta de pessoas ainda tão massacradas e excluídas pela sociedade.

Muito mais do que nos ensinar o que é o Pajubá, a questão do ENEM vem nos relembrar, ainda que indiretamente, o quão o Brasil ainda é homofóbico e preconceituoso, e a necessidade urgente de mudarmos esse quadro.

dialeto lgbt

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Ninguém está querendo “enfiar nada goela abaixo”. O que estamos querendo é respeito às diferenças e inclusão social.

O que estamos querendo é um Brasil que promova o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, tal como preconiza o artigo 3º, inciso IV da nossa Constituição Federal.

Que venham muito mais questões como essa nas provas de 2019!

Quem é Flávia Albaine?

Bacharel em Direito pela UFRJ (2008), é mestranda na Universidade Federal de RO e especialista em Direito Privado pela UERJ (2016).

Atualmente é Defensora Pública do Estado de RO, colunista de educação em direitos da Revista Cenário Minas (desde maio 2018), membro integrante da Comissão de Pessoas com Deficiência e Comissão dos Direitos da Mulher da Associação Nacional de Defensoras e Defensores Públicos (desde julho 2018) e criadora do Projeto Juntos Pela Inclusão Social.

Flávia Albaine enem lgbt

 

About author

Articles

Relaçoes-Públicas, redator, blogueirx, ativista negro e LGBT+.
Related posts
LGBTQIAMúsica

Pabllo Vittar e Sony Music promovem ações para o lançamento do single "Tímida"

Durante a semana, a gravadora Sony Music elaborou ações de marketing utilizando tecnologia para…
Read more
FestivalLGBTQIAMúsica

Linn da Quebrada é mais uma atração confirmada de GRLS!

Linn da Quebrada é mais uma atração confirmada de GRLS! Linn também estará no espaço Talks…
Read more
CulturaLGBTQIASão Paulo

Cartel 011 apresenta manifesto e exposição com fotografias de Jaloo, Ney Matogrosso e outros

A exposição acontece entre os dias 3 e 6 de dezembro O Cartel 011 apresenta ao mundo o seu…
Read more
Newsletter
Become a Trendsetter
Sign up for Davenport’s Daily Digest and get the best of Davenport, tailored for you.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.