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Ser preto e gay: dois pesos diferentes

Que nós vivemos em um país miscigenado, isso não é novidade para ninguém.

Índios que aqui habitavam antes da colonização, os europeus que chegaram e tomaram tudo e, posteriormente, os africanos que foram trazidos como escravos.

Mesmo após a abolição da escravatura, aqueles que foram escravizados permaneceram com pouco. Diga-se, com quase nada. 

Décadas se passaram e aqui estou eu:

Preto, gay e de classe média.

Cresci com muitos problemas dentro de casa, durante o ensino fundamental estudei em uma escola pública que existe no meu bairro e no ensino médio pude estudar numa escola estadual onde o ensino era prestigiado.

Sem cursinho, me dediquei aos estudos – que eram intercalados com minha jornada de trabalho.

E, apesar de todo cansaço, consegui uma bolsa em uma universidade particular. Nenhuma novidade até aqui, né? Muitas pessoas passam por isto ou situações piores.

Mas, dentro da minha realidade, algumas questões sempre foram delicadas e difíceis de lidar. Durante a minha trajetória, ser negro e gay nunca foi algo fácil.

Primeiro, porque, apesar da miscigenação, o padrão de beleza e objetivo dominante em nosso país é o do homem branco ocidental.

Eu, enquanto homem negro, sempre me vi cercado do racismo e preconceitos estereotipados ao ser preto: pobre, incapaz, inferior e feio. Sempre vivi numa realidade estigmatizada, cheia de marcadores históricos e marcas de exclusão. 

E depois por ser gay.

[Tweet “Ser negro e gay nunca foi algo fácil.”]

É quando os estigmas ficam um pouco pior – porque numa sociedade heteronormativa, onde os valores culturais são predominantemente brancos, me via duplamente excluído, por ser negro e gay.

O ser LGBTQ+ brasileiro é excessivamente americanizado, elitizado e cheio de marcadores, ou sejam: o poder aquisitivo, o corpo malhado, a beleza sutil do branco, são evidenciados de forma excludente nos locais gays. 

É uma carga dupla, dois pesos diferentes. São duas causas distintas, mas que, quando juntas, levam a uma realidade ainda mais difícil de ser encarada.

Por um lado, nunca me vi aceito pelos homens negros, justamente por ser gay e do outro, não me sentia completamente aceito no meio LGBQ+ por ser negro.

No movimento LGBTQ+ existe uma sutil exclusão dos negros, construída social e historicamente.

[Tweet “É uma carga dupla, dois pesos diferentes.”]

Mas por que sutil?

Porque as coisas não são ditas, apenas são estabelecidas

Existe entre os gays (generalizando e em particular), o sonho do namorado perfeito, branco, másculo, viril, rico, bem-sucedido, para se ter ao lado. O que leva à solidão da bicha preta (assunto para outra hora).

Nós não nos damos conta desse pré-conceito velado em nós, até em mim, negro e gay. Todo esse desejo é sutil, seus efeitos são na subjetividade, já que muitas das vezes nada é dito, nada é falado.

Quantas vezes numa festa gay, desejamos os caras padronizados e deixamos de lado aquela mana negra? Nunca paramos para pensar que não, não é questão de gosto e sim, construção social.

Durante um tempo, precisei (ou tentei) responder à uma cultura de branqueamento, alisando meu cabelo e me portando como um gay mais normativo.

O que foi uma frustração, até o momento em que tomei ciencia do ser preto que sou. Ser inteligente, gostar de estudar e ter planos para o meu futuro não era o suficiente, não para outros gays, não para ser parceiro de alguém. 

O preconceito, a discriminação e homofobia ainda são dilemas e precisam ser discutidos diariamente em nosso país.

Viver com um fardo de uma sociedade padronizada ainda é motivo de dor e sofrimento, para mim e muitos outros que se encontram diante dessa realidade, um sonho de vida do qual ainda não faço parte.

O sonho do gay branco americano ou europeu (muitas vezes apresentados em filmes), não tem nada a ver como a minha forma de ser, meu jeito ou estilo. A desconstrução de tais estigmas se dá a partir da união dos movimentos, dos coletivos, sem exclusão. 

É preciso que negros gays façam parte e se sintam representados por seus iguais. Se faz necessário o debate e troca de ideias, a fim de se estabelecer um ideal que ampare a todos.

O que acontece aqui, é desvalorização do que somos e de quem somos, e isso leva-nos a assumir uma vida que não é nossa e exclusão dos julgados como diferentes. 

[Tweet “é desvalorização do que somos e de quem somos.”]

Ps.: Este texto representa uma experiência pessoal.  

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Relaçoes-Públicas, redator, blogueirx, ativista negro e LGBT+.
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