Posso te beijar?

O relógio marcava quase oito horas e eu estava ainda me arrumando. Seria um encontro inesperado, marcado em cima da hora e sem pretensões. Havíamos marcado apenas meia hora atrás, de nos encontrarmos às 20, numa praça bem perto dali.
Saí às pressas e subi em direção à praça o mais rápido que pude. Cinco minutos e lá estava eu. Peguei o celular e liguei para ele.
– Alô? – Ele atendeu e pude ouvir, pela primeira vez, sua voz. Soava doce e tranquila.
– Aonde está você? – Perguntei, semicerrando os olhos, tentando o encontrar.
– Estou próximo ao coreto, de frente a fonte.
– Certo. Estou quase aí. – Desliguei e caminhei ao encontro dele.
Sem dificuldade nos encontramos.
– Oi. Boa noite. – Disse ele me abraçando.
– Ei. Boa noite. Como está?
– Bem e você? – Sorrindo timidamente.
– Ótimo. Obrigado.
– Podemos procurar um lugar para sentarmos? – Perguntei.
– Sim. – Ele respondeu, balançando a cabeça afirmativamente. – Mas não vi nenhum banco vazio.
– Vamos olhar próximo a fonte, talvez tenha algum. – Disse, tomando a dianteira.
Apesar de toda timidez, ele transparecia bem quem era. Um garoto de outra cidade, que veio à capital para estudar e não parecia ser o mais badalado. Caminhamos próximos aos chafarizes, calados, e sem muita dificuldade, encontramos um banco. Nos sentamos, e ali permanecemos conversando, sem muito sacrifício em encontrar assuntos, que nos renderam boas risadas. Seu sorriso espontâneo e perfeitamente delineado, me fazia querer sorrir junto. Seus olhos se destacavam em meio à noite escura. O cabelo cortado mostrava os cachos que tomavam forma novamente. Impossível não apaixonar-me. Quando nos demos conta, já havíamos conversado durante duas horas. A noite escura, o barulho da água jorrando e as poucas luzes, davam um clima romântico e intimista ao momento. Poderia ficar ali durante a noite inteira.
Interrompidos por uma ligação dos pais dele, eu sabia que seria nossa deixa. Não me contive em demonstrar o quão agradável foi ter o encontrado e ficar conversando durante horas. Levantamos e seguimos até a esquina em seguiríamos caminhos diferentes. Prostrados um de frente ao outro, sorrimos e trocamos olhares profundos. Risos.
– Obrigado por ter vindo. – Agradeci gentilmente.
– Foi bom, mas é uma pena ter que ir. Não esperava que meus pais chegassem agora.
– Tudo bem, nos vemos em outra oportunidade.
– Claro. Será um prazer. – Disse ele, seguido de um sorriso. E que sorriso. – Posso te beijar? – Perguntou-me, pegando de surpresa.
Milésimos de segundos para pensar e responder. Quem hoje pergunta se pode beijar alguém? A não ser em filmes, não consegui me lembrar da última vez que ouvi esta frase. Bem, como fosse, eu precisava dizer algo.
– Sim. – Foi tudo que disse. E em poucos instantes nossos lábios se uniram e nossas mãos se entrelaçaram quase que involuntariamente. Sentia o peso de seu corpo sobre mim. Os batimentos acelerados eram inevitáveis. Nossas línguas dançavam em perfeita harmonia. Pausa para rir. Mais um beijo. Pude sentir o mundo parar à nossa volta e depois voltar à realidade.
Nos abraçamos e despedimos pela última vez. Seguindo caminhos diferentes, mas que se cruzariam novamente.
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2 Comments

  1. Jhonatan Ferreira 13/11/2015 at 18:52

    Adorei seu blog e agora vou te acompanhar sempre ^^ Sua escrita é muito boa.
    escrevo resenhas em um blog literário. Se puder dê uma olhada clicheimperial.blogspot.com.br
    Abraços.

    Reply
  2. Gustavo Dias 15/11/2015 at 17:17

    Ei, Jhonatan. Muito obrigado, fico grato por isto! Vou acessar sim. Beijos.

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